1 2 3 4 5 6 7 8 9
Módulo 7 de 9

Exemplos Práticos

Cinco casos comuns em exames nutrigenéticos, explicados em linguagem simples — com os cuidados que cada um exige.

ATCGGCTAAGCTTACGGATCCGTAAGCTTGGATCCAAGCTTGATATCGAATTCCTGCAGCCCGGGGGATCC ATCGGCTAAGCTTACGGATCCGTAAGCTTGGATCCAAGCTTGATATCGAATTCCTGCAGCCCGGGGGATCC

☕ Cafeína — gene CYP1A2

A cafeína é metabolizada principalmente no fígado pela enzima CYP1A2. O gene CYP1A2 codifica essa enzima, e variações no SNP rs762551 estão associadas a diferenças na velocidade de metabolismo.

O que o laudo pode mostrar

GeneCYP1A2
SNPrs762551
Genótipo AAmetabolismo mais rápido (em geral)
Genótipo AC ou CCmetabolismo mais lento (em geral)

Pessoas com metabolismo mais lento podem sentir os efeitos da cafeína por mais tempo — insônia se tomarem café à tarde, palpitações, ansiedade ou tremores com doses que outras pessoas toleram bem. Isso não significa que café é proibido; significa que o horário, a dose e a sensibilidade individual importam mais.

Mas atenção

A resposta à cafeína também depende de dose, horário, qualidade do sono, estresse, medicamentos (como alguns antidepressivos e antibióticos) e sensibilidade individual — não só do gene. Gravidez, tabagismo e uso de contraceptivos também alteram o metabolismo da cafeína.

🥛 Lactose — gene LCT

Para digerir a lactose (açúcar do leite), o intestino produz a enzima lactase. Na maioria dos mamíferos, a produção de lactase diminui após a infância. Em humanos, algumas populações mantêm essa produção na vida adulta — fenômeno chamado persistência da lactase.

O SNP rs4988235, próximo ao gene LCT, é um dos marcadores mais usados. O genótipo GG está associado à não persistência da lactase; AA, à persistência.

Sintomas que podem estar relacionados

Mas atenção

Nem todo desconforto com leite é intolerância à lactose. Pode envolver alergia à proteína do leite (caseína, beta-lactoglobulina), síndrome do intestino irritável, sensibilidade à histamina ou alterações na microbiota intestinal. Leites fermentados (iogurte, kefir) costumam ser melhor tolerados porque a lactose já foi parcialmente digerida pelas bactérias.

🥬 Folato — gene MTHFR

O gene MTHFR codifica uma enzima que converte o folato em sua forma ativa (5-metiltetrahidrofolato), usada em reações de metilação — processo importante para síntese de DNA, neurotransmissores e metabolismo da homocisteína.

A variante rs1801133 (também chamada C677T) é uma das mais estudadas. Genótipos com pelo menos um alelo T (CT ou TT) podem estar associados a atividade enzimática reduzida, especialmente quando combinados com baixa ingestão de folato.

O que observar na prática

Mas atenção

Uma variação no MTHFR não significa deficiência automática de folato, nem que toda pessoa precisa suplementar metilfolato. A decisão depende de alimentação, exames laboratoriais (homocisteína, B12, ácido fólico sérico), histórico clínico, gravidez e orientação profissional.

☀️ Vitamina D — genes VDR, GC e CYP2R1

A vitamina D é sintetizada na pele com exposição solar, obtida em pequena quantidade na alimentação e ativada no fígado (CYP2R1) e nos rins. O gene VDR codifica o receptor de vitamina D; GC participa do transporte; variantes nesses genes podem influenciar níveis séricos e resposta biológica.

Por que o exame de sangue ainda é essencial

Mesmo com predisposição genética, os níveis reais de 25-hidroxivitamina D dependem de:

Mas atenção

O exame genético não substitui o exame de sangue de 25-hidroxivitamina D. A suplementação deve ser orientada com base nos níveis reais, não apenas no genótipo.

🩸 Gorduras e colesterol — APOE, APOA2, LPL, FADS1/2

O perfil lipídico (colesterol total, LDL, HDL, triglicerídeos) é influenciado por alimentação, peso, atividade física, sono, estresse, hormônios, medicamentos e genética. Vários genes participam:

Algumas pessoas com variantes específicas podem responder melhor a certos tipos de gordura na dieta — mas isso deve ser interpretado junto com o perfil lipídico em exames de sangue repetidos ao longo do tempo, não em um único resultado genético isolado.

Mas atenção

Um gene isolado não explica todo o colesterol. A interpretação deve considerar perfil lipídico completo, histórico familiar de doença cardiovascular, pressão arterial, glicemia, hábitos de vida e, quando indicado, avaliação cardiológica.

Seu gene pode dar uma pista.
Seu corpo — e seus exames — mostram a resposta.

Referências: Cornelis MC et al., coffee, CYP1A2 and cardiovascular disease (JAMA); Mattar R et al., lactase persistence (World J Gastroenterol); Fenech M., nutrigenetics (AJCN); Holick MF., vitamin D deficiency (NEJM).